Baixe aqui Reforma Protestante – Significado e Contribuições

Alderi Souza de Matos

 

No dia 31 de outubro, muitos cristãos ao redor do mundo comemoram o aniversário da Reforma Religiosa do Século 16. Esse movimento foi um esforço de renovação e revitalização do cristianismo do final da Idade Média, que padecia de muitos problemas morais, administrativos, doutrinários e espirituais. A cúpula dirigente da Igreja Ocidental ou Romana tinha excessiva preocupação com o poder secular e a riqueza. Muitos papas, cardeais, bispos e abades viviam como potentados, dando pouca atenção às suas responsabilidades pastorais. A Igreja recolhia uma infinidade de taxas e emolumentos das nações européias, cujos reis e povos se sentiam desrespeitados em sua soberania nacional. A religiosidade da maior parte das pessoas era ignorante e supersticiosa. Colocava-se maior confiança em penitências, relíquias, orações à Virgem e aos santos, peregrinações e outros recursos do que na obra redentora de Jesus Cristo. Com isso, muitas pessoas viviam em constante insegurança quanto à salvação da sua alma, sem saber se estavam fazendo o suficiente para agradar a Deus e alcançar o seu favor.

Foi nesse contexto preocupante que entrou em cena o monge alemão Martinho Lutero (1483-1546). No dia 31 de outubro de 1517, ele publicou na cidade de Wittenberg suas famosas 95 Teses, uma série de proposições criticando a venda de indulgências, uma espécie de perdão das penalidades impostas pela igreja aos pecadores. Esperava-se que, em troca das indulgências, que beneficiavam não só os vivos, mas também os falecidos que supostamente estavam no purgatório, as pessoas fizessem doações em dinheiro, o que implicava em um verdadeiro comércio de bens religiosos. Lutero fez esse protesto porque, através do estudo cuidadoso da Bíblia, havia se deparado com o ensino do apóstolo Paulo de que a salvação concedida por Deus é inteiramente gratuita, não podendo ser “merecida”, conquistada ou comprada pelos seres humanos. Como declara a Epístola aos Efésios, “pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (2.8-9).

Lutero de modo algum queria dividir a Igreja. Ele amava a Igreja a que pertencia desde o nascimento e estava interessado em que, nas suas convicções e práticas, ela fosse mais fiel a Cristo, mais coerente com as Escrituras. Todavia, a reação dos líderes eclesiásticos fez com que o reformador ficasse na defensiva e fizesse críticas cada vez mais ousadas, levando à ruptura final. Seus seguidores ficaram conhecidos como evangélicos ou luteranos; só a partir de 1529 passaram a ser chamados protestantes. Com o passar dos anos, surgiram outros movimentos e igrejas protestantes na Europa: os reformados suíços ou presbiterianos, sob a liderança de Ulrico Zuínglio e João Calvino; os anabatistas ou menonitas, também originados na Suíça, que insistiam no batismo de adultos; e os anglicanos, na Inglaterra, liderados pelo arcebispo Thomas Cranmer. A partir do século 17, surgiriam novos grupos, tais como batistas, congregacionais e metodistas. 

Esses movimentos tinham suas peculiaridades distintivas. Todavia, eram unânimes nas questões fundamentais: (a) somente a Bíblia é a Palavra de Deus normativa para a fé e a vida da igreja e dos cristãos, devendo ser rejeitado tudo aquilo que não se harmoniza com a Escritura ou não pode ser claramente deduzido dela; (b) Jesus Cristo é o único salvador e medianeiro entre os seres humanos e Deus, ficando excluídos quaisquer outros intermediários; (c) a salvação é inteiramente uma dádiva da graça de Deus e somente pode ser recebida pela fé ou confiança no evangelho; as boas ações humanas não contribuem para a reconciliação com Deus, mas são o fruto da nova vida em Cristo; (d) todo cristão é um sacerdote de Deus (ver 1 Pedro 2.5,9; Apocalipse 1.6), sendo inadequada a distinção entre clero e leigos; a igreja é acima de tudo o conjunto daqueles que confessam o nome de Cristo, o povo de Deus.

A Reforma Protestante teve o seu lado desagradável, pois dividiu a Igreja ocidental e foi acompanha de guerras e outros conflitos lamentáveis. No entanto, suas contribuições positivas foram mais marcantes. Ela despertou muitas pessoas para um cristianismo mais bíblico, singelo e autêntico, à semelhança do que ocorreu nos primeiros tempos da igreja. Ela deu ênfase a um modelo eclesiástico mais participativo, gerando maior envolvimento das pessoas na vida de suas comunidades. Ela criou uma nova ética do trabalho, que trouxe grande prosperidade econômica e intelectual para os povos que a abraçaram. Ela contribuiu para o surgimento das instituições democráticas que têm sido tão importantes na vida política e social do Ocidente e do mundo.