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A Reforma e as Diferenças que Trouxe

Alderi Souza de Matos

 

No final da Idade Média, o cristianismo já existia há mil e quinhentos anos. A Igreja Católica Romana, sua única expressão institucional no Ocidente, era rica, poderosa e influente. Porém, muitas pessoas estavam profundamente insatisfeitas com diversas coisas que aconteciam na igreja. Uma delas era o excesso de envolvimento político e as preocupações mundanas dos papas da época. A igreja arrecadava enormes somas de dinheiro nos diversos países europeus e isso também causava indignação em muitos governantes e cidadãos. Outros eram críticos de uma religiosidade centrada nos santos, festas, relíquias e peregrinações, muitas vezes repleta de superstições. Todavia, alguns entendiam que havia um problema ainda mais sério: as doutrinas e práticas da igreja revelavam um perigoso afastamento das Escrituras.

Entre os primeiros a fazerem esse alerta, estavam os chamados humanistas. Eles eram indivíduos que tinham profunda admiração pela antiguidade grega e romana, uma época que havia testemunhado notável florescimento da filosofia, literatura e arte. Alguns desses homens do Renascimento se interessaram de modo especial por um livro que havia sido escrito no período antigo – a Bíblia. Eles se dedicaram ao estudo das línguas originais (hebraico e grego) e fizeram novas traduções do texto bíblico. Esse interesse inicialmente foi apenas literário, mas com o passar do tempo surgiu também uma preocupação religiosa e doutrinária. Em especial, os humanistas bíblicos ficaram incomodados com os contrastes que viam entre o ensino da Escritura e muitas realidades que observavam em sua igreja.

Foi nesse contexto que entrou em cena o monge alemão Martinho Lutero (1482-1546). Ele era um católico dedicado e havia ingressado na vida religiosa em busca da salvação de sua alma. Todavia, descobriu que suas rigorosas penitências e jejuns não traziam paz ao seu coração. Isto porque ele nutria um conceito equivocado a respeito da justiça de Deus, para ele uma justiça severa e punitiva. Finalmente, mediante o estudo da Bíblia, em especial as cartas do apóstolo Paulo, Lutero descobriu a verdade da justificação pela fé. A justiça não é algo que Deus exige de nós, mas que ele nos concede graciosamente em Cristo, por meio da fé. Como diz a epístola aos Efésios: “Pela graça sois salvos mediante a fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus”

Lutero de modo algum pretendia dividir a igreja. Ele amava a única igreja que conhecia e na qual havia sido criado desde criança. Seu intento inicial foi protestar contra a venda das indulgências, que era um perdão concedido pela igreja aos pecadores. Ele considerava injustificado o comércio que se fazia em torno dessa prática eclesiástica. Suas Noventa e Cinco Teses sobre o tema foram publicadas em 31 de outubro de 1517. Esse dia marcou o início da Reforma do Século 16. Diante da reação excessiva dos seus superiores e da constatação de que não pretendiam corrigir os abusos que ele havia denunciado, Lutero começou a levantar novos questionamentos e por fim rompeu com a igreja romana. Seus seguidores ficaram conhecidos como luteranos, evangélicos ou protestantes. Mais tarde, surgiram outros movimentos de reforma, como o de Zuínglio e Calvino, que se inspiraram em parte nos ensinos do reformador alemão.

As principais ênfases de Lutero foram sintetizadas em cinco princípios que vieram a ser abraçados por todos os protestantes. Esses princípios foram expressos em latim, a língua internacional da época. São eles: sola Scriptura, solo Christo, sola Gratia, sola Fides e soli Deo Gloria. O primeiro, sola Scriptura (somente a Escritura) afirma a supremacia da Palavra de Deus para a vida e a fé dos cristãos. A revelação escrita de Deus, sendo o conjunto dos textos originais e fundamentais da fé cristã, deve ser a norma suprema acerca do que os cristãos devem crer e praticar. A igreja precisa se colocar continuamente sob o juízo das Escrituras, procurando conformar a elas suas doutrinas e preceitos. Todo ensino eclesiástico que não encontra respaldo na Palavra não pode ter valor normativo para os cristãos.

Os três princípios seguintes – solo Christo, sola gratia e sola fides (somente Cristo, a graça e a fé) – constituem a já referida doutrina bíblica da justificação, ou seja, o fato de que o ser humano só pode ser justificado, isto é, aceito por Deus como justo diante dele, perdoado, redimido e salvo, mediante a dádiva graciosa de Cristo recebida por meio da fé. Como declara o apóstolo Paulo: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus… Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 3.23s; 5.1). O último princípio, soli Deo gloria (glória somente a Deus), afirma que, sendo Deus o criador e o soberano de tudo, inclusive da redenção, a ele, e somente a ele, é devida toda a glória, honra e louvor.

Houve ainda outro princípio central da Reforma que foi o “sacerdócio de todos os crentes”, também conhecido como “sacerdócio universal dos fiéis”. Mediante esse lema foi questionada a distinção radical entre clero e leigos, afirmando-se que todos os cristãos são igualmente sacerdotes ou ministros de Deus (ver 1Pe 2.5,9; Ap 1.6; 5.10). Os crentes não dependem dos ministros ordenados para se chegarem a Deus e receberem da sua graça. Eles têm livre e pleno acesso ao Pai, tendo como único mediador o Senhor Jesus Cristo. Cada um deles tem um ministério a desempenhar na igreja e no mundo. As atividades que exercem na sociedade têm tanto valor quanto o trabalho dos religiosos.

Graças aos seus princípios e ênfases, a Reforma produziu diferenças em muitas áreas. Para começar, houve uma renovada apreciação pela Escritura Sagrada. Ao longo dos séculos, a Bíblia havia se tornado um livro pouco acessível para a imensa maioria dos cristãos. Primeiro, por causa da falta de traduções. Existia a Vulgata Latina, versão feita no quinto século por Jerônimo que tinha se tornado o texto oficial da igreja romana. Nos outros idiomas, havia somente porções da Bíblia, não ela inteira. Essa situação era agravada pelos altos índices de analfabetismo entre o povo. Além disso, pelo temor de que as pessoas interpretassem o texto bíblico em desacordo com os dogmas da igreja, as autoridades eclesiásticas não estimulavam os fiéis a conhecer a Escritura. Finalmente, a importância da Escritura era relativizada por muitas tradições e ensinos da igreja.

A Reforma se esforçou em colocar a Palavra de Deus nas mãos do povo. Em poucos anos, a Bíblia foi traduzida para muitos idiomas europeus. As pessoas foram incentivas a ler e estudar por si mesmas as Escrituras (o princípio do “livre exame”). Para atenuar o risco de interpretações inadequadas, os reformadores não só escreveram muitos comentários bíblicos, mas elaboraram regras saudáveis de interpretação. A Bíblia passou a ocupar um lugar central na teologia, no culto e na vida devocional. Estimulou-se a criação de escolas para que as pessoas pudessem ler as Escrituras e outros livros edificantes. O interesse pela Bíblia gerou uma grande elevação do nível educacional e intelectual dos povos alcançados pela Reforma.

Em segundo lugar, a Reforma marcou um retorno às ênfases neotestamentárias da salvação e da vida cristã. A principal dessas ênfases é a centralidade de Deus em sua soberania e glória. Como diz a Escritura, “dele, por meio dele e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente” (Rm 11.36). Os reformadores insistiram no fato de que Deus é a fonte, o autor e o senhor de tudo e, portanto, deve merecer a devoção e a obediência suprema dos cristãos. Assim, Lutero, Calvino e os demais líderes da Reforma negaram todos os outros objetos de culto (Maria, anjos, santos, relíquias) para se concentrarem somente no Deus trino. Essa ênfase teocêntrica e bíblica veio a caracterizar a teologia, o culto e a espiritualidade das comunidades protestantes.

Sem negar a importância das decisões e das respostas humanas, a Reforma deu grande destaque a prioridade da graça soberana na redenção. Ninguém pode ser redimido, justificado e perdoado sem que Deus tome a iniciativa e atue soberanamente no coração, mediante o seu Espírito, com base na obra expiatória de Cristo. Assim, a salvação não depende dos esforços humanos, por melhores que sejam, isto é, dos méritos e boas ações das pessoas, mas é sempre, do início ao fim, uma dádiva graciosa de Deus. Portanto, na perspectiva da Reforma, a salvação deixou de ser o objetivo da vida cristã, e sim o seu ponto de partida. Devemos viver a vida inteira como salvos em processo de santificação, e não como pessoas que estão em busca da salvação.

A ênfase na importância dos “leigos”, ou seja, do povo de Deus, também teve consequências revolucionárias. Os fieis deixaram de ser observadores passivos para se tornarem participantes envolvidos em todos os aspectos da vida da igreja. Ao lado dos ministros, eles passaram a assumir responsabilidades de governo, administração, ensino e pastoreio. Associado a isto, surgiu um novo conceito de vocação, visto que agora toda e qualquer atividade profissional passou a ser entendida como uma bênção de Deus e uma oportunidade de serviço a ele e à sociedade. Surgiu ainda uma nova ética do trabalho, caracterizada pela disciplina, frugalidade e boa mordomia dos recursos concedidos por Deus, resultando em prosperidade para famílias, comunidades e nações.

Outra valiosa contribuição da Reforma ocorreu no âmbito político. O envolvimento dos fiéis na vida das igrejas, a eleição dos oficiais eclesiásticos em assembleias públicas e muitas outras práticas participativas contribuíram para o desenvolvimento da democracia, da liberdade e da tolerância, que tantos benefícios trouxeram ao mundo moderno. Esse aspecto está especialmente associado à Reforma Suíça, mais conhecida como “movimento reformado”, e a seu líder mais destacado, João Calvino. Os historiadores e pensadores reconhecem a contribuição decisiva da Reforma Protestante para o surgimento de instituições democráticas, não somente na Europa, mas, por meio da atividade missionária, em muitas nações em desenvolvimento ao redor do mundo.

Em conclusão, a Reforma surgiu há cinco séculos em resposta a importantes questionamentos que resultaram do novo interesse pelas Escrituras. Isso resultou em muitas e importantes transformações que beneficiaram o cristianismo e a sociedade. Algumas dessas mudanças ocorreram no campo religioso, como uma nova compreensão a respeito de Deus, da salvação, da vida cristã e da própria igreja. Outras contribuições se deram num âmbito mais amplo, como a ênfase na educação, o novo conceito de vocação e do trabalho, a responsabilidade social e a participação na vida da comunidade. Por tudo isto devemos ser profundamente gratos a Deus, mas é também necessário que continuemos a conhecer, valorizar e praticar esse precioso legado do qual somos herdeiros.