Baixe aqui Contribuições da Reforma 

Contribuições da Reforma ao Mundo Moderno

Alderi Souza de Matos

 

A Reforma e a Cultura

Cultura pode ser entendida como o conjunto de conhecimentos, comportamentos, crenças, instituições e outros valores transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade. Também inclui todas as atividades e realizações humanas. Em sua obra Cristo e cultura (1951), o teólogo norte-americano H. Richard Niebuhr fez uma famosa tipologia da relação entre fé cristã e cultura ou entre igreja e sociedade, identificando cinco possibilidades: “Cristo contra a cultura”, “o Cristo da cultura”, “Cristo acima da cultura”, “Cristo e cultura em paradoxo” e “Cristo, o transformador da cultura”. Para ele, os dois últimos tipos foram exemplificados, respectivamente, pelos reformadores Martinho Lutero e João Calvino.

Desde a perspectiva protestante e reformada, a cultura humana, em suas diferentes manifestações, é muito relevante, mas não pode ser um valor supremo, inquestionável. Ao lado de elementos de grande beleza, riqueza e criatividade, por vezes existem nela fatores perniciosos, negadores da dignidade humana, das boas relações do ser humano com o seu semelhante e com o meio em que vive. A guerra, o racismo e a violência têm sido traços culturais de muitos povos. Assim, a fé cristã muitas vezes se encontra em paradoxo, em conflito, com certas expressões culturais, mas também almeja a elevação, o aperfeiçoamento e a redenção da cultura humana.

Você sabia?

A palavra latina cultura tem o sentido original de “cultivo” ou “cuidado”, daí palavras como agricultura ou puericultura.

A Reforma e a Educação

Vários princípios da Reforma geraram um profundo interesse pela educação. A norma de Sola Scriptura exigia que a Bíblia fosse lida, estudada e ensinada. Para tanto, era preciso que as pessoas fossem alfabetizadas e instruídas, e que os pastores, os ministros da Palavra, recebessem sólida formação intelectual. O preceito do “Sacerdócio universal dos fiéis”, ou seja, a entendimento de que todo cristão é um ministro de Deus, fez com que se eliminasse a distinção entre clero e leigos, levando os crentes a um forte envolvimento com a vida da igreja. Além disso, surgiu um novo conceito de vocação que valorizava todas as atividades humanas como oportunidades de serviço a Deus e ao próximo.

Em consequência, desde o início os reformados se dedicaram à criação de escolas, como a Academia de Genebra, fundada por João Calvino em 1559. À medida que o movimento se difundiu, primeiro na Europa e depois nos outros continentes, os protestantes disseminaram o interesse pela educação e multiplicaram suas instituições de ensino. Surgiram, assim, algumas universidades que hoje se encontram entre as mais prestigiadas do mundo, como Harvard, Yale e Princeton, nos Estados Unidos. Na América Latina, o melhor exemplo é a Universidade Presbiteriana Mackenzie. O bispo e educador morávio Jan Amos Comenius (1592-1670) é considerado um dos pais da educação moderna.

Você sabia?

No final do século 18, praticamente não havia analfabetismo na Nova Inglaterra (Estados Unidos), visto que todas as crianças tinham acesso à escola.

A Reforma e a Política

O movimento do século 16 produziu uma nova concepção acerca da igreja, buscando resgatar algumas ênfases do cristianismo antigo. A igreja passou a ser vista primordialmente, não como uma instituição, mas como a “comunhão dos fiéis”, o conjunto dos seguidores de Cristo. Com isso, as primeiras comunidades protestantes se tornaram ambientes de intensa participação democrática. Os fiéis tinham forte atuação no culto, nas assembleias deliberativas, na eleição dos pastores e outros oficiais. Esse estilo participativo logo se transferiu para a área política, a gestão dos interesses da sociedade mais ampla. Ao mesmo tempo, surgiu uma intensa reflexão sobre as obrigações e limites dos governantes e os deveres e direitos dos cidadãos.

Assim, não é de admirar que nações protestantes como Inglaterra, Holanda e Estados Unidos tenham se tornado o berço das modernas instituições democráticas que tantos benefícios têm trazido ao mundo. A maior parte das confissões de fé protestantes inclui seções sobre o estado, reconhecendo a importância das instituições públicas, mas rejeitando a onipotência estatal. Os protestantes, em especial os calvinistas, tiveram participação decisiva em três grandes revoluções contra a tirania: a independência holandesa, a “Revolução Gloriosa” inglesa e a Revolução Americana. Historicamente, os protestantes têm defendido a tolerância, a liberdade de consciência e a separação entre a igreja e o estado.

Você sabia?

Entre os signatários da Declaração de Independência dos Estados Unidos (1776), estava um ministro religioso, o presbiteriano John Witherspoon.

A Reforma e a Economia

No início do século 20, Max Weber publicou seu influente livro A ética protestante e o espírito do capitalismo. O sociólogo alemão defendeu a tese de que a teologia e a ética calvinistas foram fatores importantes no desenvolvimento do capitalismo moderno. Embora alguns de seus argumentos sejam questionáveis, é inegável que os valores de disciplina, frugalidade e apego ao trabalho apregoados pela Reforma contribuíram para a prosperidade das nações protestantes. Ao mesmo tempo, a ética protestante se voltou contra as mazelas do chamado “capitalismo selvagem”, como a obsessão pelo lucro e o desprezo pelos direitos dos trabalhadores.

Refletindo sobre os ensinos da Bíblia acerca de temas como dinheiro, riqueza e pobreza, os reformadores também deram ênfase aos deveres de compaixão e solidariedade para com os menos afortunados, de busca incessante de uma sociedade mais justa e fraterna. São exemplos disso as constantes gestões de Calvino junto aos órgãos dirigentes de Genebra no sentido de que fossem coibidas práticas econômicas lesivas aos pobres, como a cobrança de juros extorsivos e a retenção dos estoques de alimentos para forçar a elevação artificial dos preços.

Você sabia?

Muitos anabatistas e menonitas optaram por viver em comunidades agrícolas, compartilhando igualmente todos os seus recursos.

A Reforma e a Ciência

O cristianismo contribuiu para o desenvolvimento da ciência ao postular um mundo criado por Deus e dotado de leis fixas e universais. Porém, no início do período moderno, a condenação de Galileu pela Inquisição, em 1633, pelo fato de ter defendido o heliocentrismo, parecia indicar que a fé cristã se colocava contra a ciência. Desde os seus primórdios, o movimento protestante deu grande importância ao labor científico, como fica evidenciado em seu interesse pela educação e pela criação de universidades.

Sir Isaac Newton (1642-1717), um dos pais da ciência moderna, era um anglicano impelido por profundas motivações religiosas. Esse cientista, físico e matemático considerava a ciência um “jardim” que lhe fora dado para cultivar e cria que cada descoberta que fazia lhe havia sido comunicada pelo próprio Deus. Entre suas contribuições estão a descoberta da lei da gravidade, o cálculo infinitesimal, o espectro de cores da luz branca e o estudo dos chamados anéis de Newton.

Você sabia?

Por vários séculos, a maioria dos cientistas foram cristãos, muitos deles ligados a igrejas protestantes.

A Reforma e a Música

É incalculável a contribuição que a Reforma Protestante deu ao campo da música. Em primeiro lugar, os reformadores restauraram o canto congregacional ao lugar de proeminência que havia ocupado na igreja antiga. Alguns deles, a começar de Lutero, foram grandes compositores sacros. Quem já não ouviu ou cantou seu vigoroso hino “Castelo forte”? No ramo calvinista ou reformado, uma preocupação significativa foi a criação de saltérios, ou seja, hinários constituídos de salmos metrificados e musicados. Nessa tarefa, destacaram-se os compositores franceses Louis Bourgeois e Claude Goudimel.

No que diz respeito à música instrumental e erudita, vale lembrar a figura extraordinária do compositor e organista alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750). Um luterano convicto durante toda a vida, ele produziu centenas de composições que até hoje impressionam e encantam as audiências, como o coral “Jesus alegria dos homens”. Seu contemporâneo e compatriota Georg Friedrich Händel, que recebeu influências do movimento pietista em Halle, é conhecido pelo belíssimo e comovente oratório “Messias”.

Você sabia?

O reformador suíço Ulrico Zuínglio, embora fosse talentoso organista, achava que não devia haver música instrumental no culto, só vocal.

A Reforma e as Artes                    

A arte foi definida como uma atividade voltada para a criação de sensações ou de estados de espírito de caráter estético, bem como a capacidade criadora de transmitir tais sensações e sentimentos. Sendo numerosas tais atividades, convencionou-se subdividi-las em artes plásticas ou visuais, artes cênicas ou dramáticas, artes musicais, etc. As mais salientes são a música, o teatro, a pintura, a escultura e a arquitetura.

Nos seus primeiros tempos, a Reforma Protestante se mostrou bastante reticente em relação à pintura e à escultura, por considerar que elas haviam sido utilizadas de modo inadequado pela igreja medieval. A grande ênfase dos reformadores na Palavra como meio de comunicação da mensagem cristã fez com que as artes visuais fossem relativizadas ou até mesmo esquecidas.

Posteriormente, surgiram expressões artísticas de grande beleza influenciadas pela cosmovisão protestante, em especial no campo da pintura. Alguns nomes conhecidos são os alemães Albrecht Dürer, Lucas Cranach e Hans Holbein e os holandeses Jan Vermeer e Rembrandt van Rijn. Durante sua vida cheia de provações, Rembrandt (1606-1669) foi acima de tudo um pintor da Bíblia, tendo deixado cerca de 850 pinturas, gravuras e desenhos sobre temas bíblicos. Ele é considerado o grande artista do discipulado cristão diário, como se pode ver em seu impressionante “Cristo em Emaús”.

Você sabia?

O príncipe protestante Maurício de Nassau trouxe para o Brasil pintores talentosos como Frans Post e Albert Eckhout, que produziram telas de grande beleza e sensibilidade.

A Reforma e a Arquitetura

O movimento protestante foi herdeiro de uma grandiosa e milenar tradição arquitetônica cristã. Em diversos países, como Suíça, Alemanha, Inglaterra e Escócia, templos católicos romanos passaram a abrigar congregações reformadas. De um modo geral, a parte externa desses edifícios foi mantida inalterada, porém o interior sofreu modificações substanciais em razão das convicções teológicas do novo movimento.

Além da remoção das imagens, o altar da missa cedeu espaço para o púlpito, por causa da centralidade da pregação da Palavra. Todavia, muitos templos retiveram seus belos vitrais com cenas bíblicas e outros elementos decorativos que não pareciam violar os preceitos bíblicos contrários à idolatria. Agora tais elementos não eram mais tidos como “a Bíblia dos ignorantes”, mas como expressões simbólicas da beleza da criação e da majestade do Criador.

Os novos templos protestantes construídos na Europa, Estados Unidos e outros países, mantiveram muitas características arquitetônicas antigas, porém com maior sobriedade. Christopher Wren (1632-1723), filho de um ministro anglicano, projetou notáveis edifícios para a Igreja da Inglaterra. Nos Estados Unidos, destaca-se a Trinity Church, um belíssimo templo episcopal em Boston.

Você sabia?

Nos países do terceiro mundo em que atuaram as missões protestantes, as restrições legais resultaram em uma arquitetura eclesiástica pobre, como é o caso do Brasil.

A Reforma e o Direito

A grande reflexão produzida pela Reforma Protestante a respeito do estado só poderia resultar em importantes considerações jurídicas. Afinal, o estado é o responsável pela construção e manutenção do ordenamento jurídico da sociedade. Assim, direta ou indiretamente, o novo movimento contribuiu para o aperfeiçoamento do direito em suas diferentes manifestações (civil, público, constitucional, internacional).

Foi decisiva a contribuição da Reforma para conquistas como o governo representativo, a separação dos poderes e a ampliação dos direitos e liberdades civis. Aquilo que se denomina “estado de direito”, recebeu grande incentivo das convicções reformadas. Um nome de grande expressão é o do jurista e estadista holandês Hugo Grotius (1583-1645), considerado o pai do direito internacional.

Um personagem destacado na Inglaterra foi o parlamentar William Wilberforce (1759-1833), um dos principais responsáveis pela abolição do tráfico internacional de escravos. Ele e outros integrantes do movimento evangélico do século 18 também contribuíram para a aprovação de leis humanitárias voltadas para a reforma das prisões, a supressão do trabalho infantil e outras causas valiosas.

Você sabia?

A luta dos primeiros protestantes pela liberdade religiosa no Brasil contribuiu para uma legislação liberal e tolerante nessa área.

A Reforma e a Literatura

Sendo o protestantismo um movimento do Livro e dos livros, somente poderia resultar em vasta e significativa produção literária. Em primeiro lugar, isso se manifestou na tradução da Bíblia para o vernáculo de muitas nações. Algumas dessas traduções se revestiram de grande valor literário e tiveram profunda influência sobre os respectivos idiomas, como foi o caso da Bíblia Alemã de Lutero e das muitas edições inglesas da Bíblia publicadas nos séculos 16 e 17 (Tyndale, Bíblia de Genebra, King James e outras).

A chamada erudição bíblica, ou seja, o estudo especializado da Escritura, também foi responsável por grande quantidade de literatura de alto nível. Um exemplo clássico são as Institutas da Religião Cristã e os comentários bíblicos de João Calvino. No âmbito da literatura devocional, merece destaque O Peregrino (1678), de autoria do pastor batista inglês John Bunyan, um dos livros mais lidos de todos os tempos.

Quanto a grandes obras de literatura propriamente ditas, um dos exemplos mais eloquentes é o do poeta inglês John Milton, autor de Paraíso Perdido (1667), grandioso poema épico a respeito da Queda, considerado uma das expressões mais refinadas da literatura inglesa. Muitos também veem nas obras de William Shakespeare passagens que revelam profunda percepção da fé cristã e calorosa simpatia em relação ela.

Você sabia?

Alguns protestantes brasileiros se destacaram no estudo da língua e literatura portuguesa, como Eduardo Carlos Pereira, Otoniel Mota e Isaac Nicolau Salum.

A Reforma e a Ética Social

Tanto em seus escritos como em suas ações, os reformadores e seus herdeiros foram marcados por forte interesse social. João Calvino atribuiu grande importância ao ofício diaconal como expressão da responsabilidade social da igreja. Em seus comentários, sermões e em sua obra magna, as Institutas, ele destacou os ensinos das Escrituras a esse respeito. Calvino também exortou as autoridades civis a promoveram a justiça social e apoiou duas importantes instituições sociais em Genebra, o Hospital Geral e a Bolsa Francesa para Estrangeiros Pobres.

Movimentos posteriores mantiveram essa preocupação, como o pietismo alemão, o movimento evangélico inglês e os grandes despertamentos norte-americanos. Estudos recentes revelam que as missões protestantes dos séculos 19 e 20 foram fundamentais para a elevação dos padrões educacionais, políticos e sociais de muitas nações ao redor do mundo. Iniciativas como o Exército de Salvação, o evangelho social, o movimento de Lausanne e a missão integral são outras expressões desse duradouro legado da Reforma no âmbito social.

Você sabia?

Um indivíduo cuja fé evangélica causou enorme impacto na história recente foi o pastor batista Martin Luther King Jr., defensor dos direitos civis dos afroamericanos.

A Reforma e o Mundo Moderno

Não é fácil avaliar com precisão o impacto da Reforma Protestante no mundo moderno e contemporâneo, nem se deve ter uma postura ufanista que só vê aspectos positivos e elogiosos nesse grande e complexo movimento que completa 500 anos. Todavia, é forçoso reconhecer que as contribuições da Reforma foram numerosas e significativas. A vida de incontáveis indivíduos, comunidades e mesmo de sociedade inteiras se tornou melhor graças às ênfases dos reformadores e seus sucessores.

Hoje, em razão do secularismo avassalador, muitas nações protestantes estão progressivamente abandonando a sua herança espiritual. No entanto, mesmo deixando de lado o componente religioso, continuam inconscientemente se beneficiando dos valores, das instituições, das conquistas e da história construída pela Reforma ao longo dos séculos. Apesar dos percalços da caminhada, espera-se que os herdeiros dos reformadores continuem encontrando inspiração na vida e no trabalho dos pioneiros para revitalizar o seu movimento e dar novas contribuições ao mundo em que vivem.

Você sabia?

As igrejas protestantes reconheceram sua necessidade de uma contínua reforma ao cunharem o moto “Ecclesia reformata semper reformanda” (Igreja reformada, sempre se reformando).