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O Impacto do Protestantismo na Cultura Ocidental

Alderi Souza de Matos

 

Introdução

  • A complexidade do tema: duas tendências – superestimar a influência da Reforma no mundo ocidental (historiografia protestante); minimizar essa influência, relativizando as áreas de impacto transformador normalmente atribuídas ao movimento. Por exemplo: Felipe Fernández-Armesto e Derek Wilson, Reforma: o cristianismo e o mundo 1500-2000 (Record, 1997).
  • Certos autores oferecem uma visão mais equilibrada, reconhecendo que outras influências e movimentos também moldaram positivamente o mundo moderno, sem negar, todavia, as contribuições resultantes da Reforma Protestante. Dois exemplos são: Harold J. Grimm, The Reformation Era 1500-1650 (Macmillan, 2ª ed., 1973) e Carter Lindberg, As reformas na Europa (Sinodal, 2001).

1. Fundamentos

  • Dentre os princípios norteadores da Reforma, três tiveram importantes consequências teológicas e religiosas. São eles sola gratia, sola fides e solo Christo, que foram enfeixados no conceito da justificação pela graça mediante a fé somente. Essa doutrina significou a redescoberta e valorização da mensagem central do cristianismo – o evangelho, as boas novas do amor gracioso de Deus revelado em Cristo.
  • Outros dois princípios da Reforma, além de suas repercussões no âmbito religioso, produziram fortes consequências culturais e sociais. São eles a supremacia da Escritura (sola Scriptura) e o sacerdócio de todos os crentes, que tiveram reflexos políticos, econômicos, sociais, literários, educacionais e éticos.
  • O pensamento dos reformadores (Lutero, Calvino) e dos seus herdeiros também contribuiu decisivamente para o impacto do protestantismo no mundo ocidental. Carter Lindberg observa que a Reforma afetou todos os aspectos da cultura: o trabalho, a economia, a arte, a literatura, a música. Vejamos algumas áreas em que esse impacto foi particularmente significativo:

2. Literatura e educação

  • A Reforma foi um movimento centrado na Palavra (Escritura) e na palavra (pregação, ensino, publicação de livros). O interesse dos reformadores pela Bíblia, que já era nutrido por alguns humanistas antes deles, como Erasmo de Roterdã, levou a uma grande ênfase na tradução da Escritura para as diferentes línguas europeias. Algumas dessas traduções se tornaram verdadeiros monumentos literários de certos idiomas, como a Bíblia Alemã, de Lutero. Essas Bíblias no vernáculo tiveram um papel importante na normatização das línguas europeias.
  • Os protestantes souberam utilizar com grande eficiência um avanço tecnológico que havia surgido recentemente, a imprensa de tipos móveis, inventada por João Gutenberg. Acredita-se que, sem a invenção da imprensa, dificilmente teria ocorrido a Reforma Protestante. O novo movimento passou a girar em torno do Livro e dos livros, criando uma cultura literária até então inédita na história do Ocidente. As literaturas nacionais foram fortemente influenciadas pelos reformadores. A Bíblia “funcionou como uma parteira para produzir todo um conjunto de grande literatura. Possibilitou que um funileiro de Bedford escrevesse O Peregrino”. Dois grandes literatos protestantes foram o dramaturgo William Shakespeare e o poeta John Milton, autor de Paraíso perdido.
  • Uma das consequências desse novo enfoque foi o interesse pela educação. Grimm observa que provavelmente a influência mais significativa do protestantismo foi o fato de ter estendido a educação a um segmento muito mais amplo da população. A importância de ler e estudar a Bíblia desde a infância exigia que as pessoas fossem alfabetizadas e cultivassem a vida intelectual. Algumas regiões protestantes da Europa, como a Alemanha e a Escócia, foram as primeiras a terem educação universal, ou seja, para todas as crianças e jovens. O mesmo ocorreu na Nova Inglaterra puritana, na América do Norte, o primeiro lugar em que a educação se tornou obrigatória, universal e gratuita, ainda em meados do século 17. João Amós Comenius (1592-1670), um bispo da igreja morávia, é considerado o pai da educação moderna. Em sua obra Didática Magna (1632), ele propôs o plano de um sistema educacional completo, desde o lar até a universidade. Com o passar do tempo, os protestantes criaram as suas próprias universidades, como as de Genebra, Leyden, Harvard, Yale e Princeton.

3. Política

  • Harold Grimm pontua: “Os ensinos dos reformadores e de seus seguidores tiveram considerável influência sobre o desenvolvimento do moderno pensamento político, econômico e social”. As posições doutrinárias da Reforma contribuíram para o surgimento de um etos democrático. O conceito do sacerdócio de todos os fiéis anulou a distinção radical entre clero e leigos, proclamando que os ministros ordenados somente se distinguiam dos outros cristãos pelo seu ofício. Para Lutero, a igreja não era mais uma instituição hierárquica, e sim uma comunidade de pessoas crentes (communio sanctorum). A noção calvinista da igreja como comunidade pactual contribuiu para o surgimento da ideia do contrato social. William Tyndale dizia que a oração de um sapateiro vale tanto quanto a de um cardeal, a de um açougueiro tanto quanto a de um bispo e a bênção de um padeiro que conhece a verdade vale tanto quanto a do papa. Carter Lindberg observa: “O igualitarismo religioso poderia levar ao igualitarismo social e político”.
  • Outro legado político da Reforma foi a defesa da consciência individual. Lutero foi inflexível ao defender a liberdade da fé: “Não vou obrigar ninguém à força, pois a fé deve vir livremente, sem compulsão”. Calvino teve um pensamento político essencialmente conservador, defendendo a submissão aos governantes a não ser em situações muito excepcionais. Para ele, a melhor forma de governo era uma aristocracia composta de homens piedosos. Porém, quando se intensificou a repressão contra os protestantes em alguns países, foi abandonada a ideia de uma resistência meramente passiva. Após o Massacre do Dia de São Bartolomeu (1572), surgiu entre os huguenotes, isto é, os evangélicos franceses, vigorosa argumentação em favor de um constitucionalismo que limitava o poder do rei e defendia a consciência individual. Algumas obras importantes nesse sentido são Franco-Gallia (1573), de François Hotman; Direito dos magistrados (1574), de Teodoro Beza, e Vindicação contra os tiranos (1579), de Filipe du Plessis-Mornay. O mesmo aconteceu na Escócia e na Inglaterra. Os argumentos protestantes em favor da resistência à tirania contribuíram para as revoluções americana e francesa do século 18.

4. Economia

  • Com seu novo entendimento de vocação, os reformadores solaparam o dualismo medieval de trabalho sagrado e secular. Na velha ordem, somente os religiosos eram tidos como vocacionados. Os líderes protestantes passaram a defender que todo trabalho é uma vocação divina, o que resultou na valorização das atividades comuns e gerou uma nova ética do trabalho. Qualquer atividade lícita exercida honestamente passou a ser vista como um instrumento de serviço a Deus e à comunidade. Além disso, a ênfase na responsabilidade, disciplina e frugalidade tendia a gerar prosperidade para as famílias e comunidades.
  • Desde a publicação da obra de Max Weber, A ética protestante e o espírito do capitalismo, tornou-se comum associar o capitalismo com o calvinismo. Segundo o sociólogo alemão, os calvinistas europeus dos séculos 17 a 19 consideravam sua prosperidade material como uma evidência de que estavam entre os eleitos de Deus. Qualquer que seja o juízo que se faça sobre essa tese, deve-se observar que a economia baseada no lucro e as formas primitivas de capitalismo são anteriores à Reforma e, o que é mais importante, Calvino nunca associou o sucesso material com a posição do indivíduo diante de Deus. Como sua teologia era comunitária, e não individualista, ele encarava as riquezas como uma bênção divina a ser compartilhada com toda a comunidade. No âmbito da economia, Lutero e Calvino atacaram vigorosamente o capitalismo, por seu elemento de cobiça irrestrita, exigindo o controle governamental do mesmo. Além disso, os reformadores contribuíram para o desenvolvimento da assistência e previdência social moderna.

5. Ação social

  • O trabalho dos reformadores incluiu uma grande quantidade de reflexão e ação social. Lutero insistiu que o estado promovesse o bem-estar geral dos cidadãos, desse assistência eficiente e sistemática aos pobres e oferecesse educação pública para todos. Ela também insistiu na aplicação da ética cristã e do princípio da equidade às transações comerciais. Em particular, ele deu sugestões para a reforma do sistema de crédito e a cobrança de juros, tendo em vista os direitos do credor e do devedor. Calvino não só escreveu amplamente sobre o tema, mas participou ativamente nas questões de sua comunidade em Genebra. Harold Grimm observa que “a principal contribuição de Calvino à moderna teoria social e econômica foi sua interpretação da vocação humana em um sentido ativista… Esse ativismo vocacional demonstrou ser uma poderosa dinâmica na civilização ocidental”.
  • Além de uma profunda reflexão sobre questões sociais em seus comentários bíblicos e sermões, Calvino se notabilizou por suas contínuas gestões junto aos órgãos dirigentes de Genebra em defesa da justiça econômica e social. Ele se posicionou contra a cobrança de juros extorsivos e a especulação em torno do preço dos alimentos, por entender que prejudicavam os elementos mais frágeis da sociedade, os pobres. Olhando para as Escrituras, o reformador insistia que as relações sociais deviam ser regidas por uma ética de generosidade e solidariedade. Ver: André Biéler, O pensamento econômico e social de Calvino (Cultura Cristã).

6. A família e a mulher

  • Steven Ozment observa: “Nenhuma mudança institucional produzida pela Reforma foi mais visível, mais responsiva aos apelos por reforma na Idade Média tardia e mais conducente a novas atitudes sociais do que o casamento de clérigos protestantes”. Os reformadores criticaram o celibato clerical não só por seu caráter meritório (uma boa obra que contribuía para a salvação), mas porque ele violava a ordem divina do matrimônio e da família, e negava a bondade criacional da sexualidade. Os seguidores de Lutero viam no matrimônio não só uma nova e alegre valorização da sexualidade, mas também um novo respeito pelas mulheres como companheiras. Apesar de sua alegada severidade, Calvino viveu alegremente em família e manteve extensa correspondência com mulheres nobres preocupadas com a Reforma.
  • Um exemplo do esforço de Lutero em valorizar a família e a mulher pode ser visto na sua oposição à prostituição. A sociedade e a teologia medievais sancionavam a existência dos bordéis municipais como um mal necessário. Pensava-se que os prostíbulos públicos impediriam os males maiores do adultério e do estupro. À luz da Escritura, Lutero e seus colegas argumentaram que a cura (o bordel) era pior que a doença (o desejo sexual masculino). No seu entender, dessa maneira a luxúria era intensificada, e não atenuada. Carter Lindberg argumenta que Lutero e seus seguidores tentaram redefinir a compreensão de gênero masculino de sua cultura, deslocando a ênfase do impulso incontrolável para a responsabilidade social.

7. Artes

  • Foi enorme a contribuição protestante no campo da música. Lutero a considerava a mais gloriosa dádiva divina depois do evangelho. Ele não só compôs hinos famosos como “Castelo forte é nosso Deus” e “Das profundezas clamo a ti”, mas, com seus colaboradores, elaborou em alto grau o canto congregacional. A música luterana alcançou sua expressão mais nobre na obra de Johann Sebastian Bach (1685-1750), que considerava seu maior objetivo louvar a Deus no espírito da teologia de Lutero. Calvino influenciou o desenvolvimento da música protestante ao incentivar a elaboração de saltérios (salmos versificados e musicados).
  • A pintura foi outra área de significativa contribuição protestante ao mundo, como se pode ver na magnífica obra do holandês Rembrandt (1606-1669), um menonita. Embora tenha pintado obras primas tratando de temas seculares, foi em suas pinturas religiosas que ele melhor demonstrou seu grande talento. Nessas telas, como a Ceia de Emaús, o biblicismo protestante, o cristianismo popular e a espiritualidade interior encontram sua expressão mais sublime (Grimm). Vale lembrar que as primeiras pinturas a retratarem o Brasil colonial foram as belíssimas telas produzidas por Albert Eckhout e Frans Post durante a ocupação holandesa do Nordeste, no século 17.

Conclusão

  • Carter Lindberg pondera: “Há entre os historiadores uma crescente disposição de ratificar que a Reforma foi um ponto decisivo com grande importância para a história universal para além de suas preocupações religiosas”. Mesmo em séculos mais recentes, a cosmovisão protestante tem dado contribuições de grande relevância para à vida de muitas nações. Alguns exemplos no âmbito político são o governo representativo, a separação dos poderes, o desenvolvimento da democracia e a ampliação dos direitos e liberdades civis.
  • Robert D. Woodberry, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Nacional de Singapura, fez uma pesquisa muito bem fundamentada na qual demonstrou de modo convincente que as missões cristãs, especialmente protestantes, tiveram influência decisiva no surgimento de regimes democráticos estáveis ao redor do mundo (“The missionary roots of liberal democracy”, American Political Science Review, maio 2012, p. 1-31). Isso se deu por meio de seus esforços em favor da liberdade religiosa, educação em massa, imprensa e jornais, organizações civis, reformas sociais e estado de direito. Os missionários fizeram muito mais nessas áreas do que seus conterrâneos seculares que trabalharam nos países do hemisfério sul, como comerciantes e diplomatas. Mais ainda, esse autor argumenta que o desenvolvimento da moderna democracia representativa ocidental foi mais influenciado por motivos religiosos (cristãos) do que por fatores seculares, como o pensamento grego, a filosofia iluminista ou o desenvolvimento socioeconômico.
  • Tendo recebido esse enorme e valioso legado, possamos nós, evangélicos brasileiros, exercer uma influência salutar e transformadora em nossa sociedade nos dias inquietantes que atravessamos.