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A Reforma – Motivações e Contribuições

Alderi Souza de Matos

 

A maior parte das pessoas tem algum conhecimento do episódio que marcou o início da Reforma Protestante, ou seja, a publicação das 95 teses de Martinho Lutero acerca das indulgências. Porém, são poucos os que conhecem o que está por trás desse famoso documento. Trata-se de uma história ao mesmo tempo curiosa e reveladora do que ocorria naquela época tanto na igreja como na sociedade europeia.

Desde 1356, o soberano alemão ou Sacro Imperador Romano era escolhido por um pequeno colégio eleitoral constituído de sete membros: três arcebispos (de Mogúncia, Trier e Colônia), três nobres e o rei da Boêmia. Um dos nobres era o Margrave de Brandemburgo, da poderosa família Hohenzollern. Em 1514, como o arcebispado de Mogúncia estivesse vago, essa ambiciosa família teve a ideia de “adquirir” tal cargo e assim aumentar sua influência numa eleição imperial que se aproximava. O escolhido para ser o novo arcebispo foi Alberto, irmão do margrave. Porém, havia um problema: Alberto já era detentor de outro bispado, e isso violaria as normas da igreja contra ofícios múltiplos, o chamado “pluralismo”.

Somente uma autorização especial do papa poderia permitir que essa lei eclesiástica deixasse de ser aplicada. Ocorre que o papa Leão X experimentava grande necessidade de recursos para construir a grandiosa Catedral de São Pedro. Assim, a autorização foi concedida em troca de uma alta soma de dinheiro, que precisou ser tomada por empréstimo, com juros exorbitantes, dos banqueiros Fugger, da cidade de Augsburgo. Para amortizar o vultoso empréstimo, Alberto, o novo arcebispo de Mogúncia, recebeu de Leão X o direito de vender indulgências, sendo metade dos rendimentos destinada à construção da catedral romana. Quando o pregador das indulgências se aproximou de Wittenberg, Lutero ficou indignado e escreveu as 95 teses. Estava deflagrada a Reforma.

Reforma! Todo movimento religioso corre o risco de se desvirtuar ao longo do tempo, de se afastar de seus fundamentos originais, necessitando de correções de rumo com maior ou menor profundidade. Isso ocorreu diversas vezes nos próprios tempos bíblicos. O Antigo Testamento relata várias reformas no culto e na vida religiosa de Israel, como as promovidas pelos reis Asa, Josias, Josafá e Ezequias, bem como aquelas empreendidas por Esdras e Neemias. Os profetas canônicos foram, em sua maioria, grandes reformadores da religião israelita. O Novo Testamento, embora não mencione movimentos dessa natureza, certamente aponta para várias igrejas e grupos que se afastaram perigosamente do evangelho e careciam, portanto, de um redirecionamento radical. O caso mais notório é aquele ocorrido com as igrejas da Galácia e descrito por Paulo em sua carta àquela região. O apóstolo lamenta a adesão dos gálatas a um “outro evangelho” e os conclama a reconsiderarem as suas posições, retornando ao genuíno evangelho de Cristo.

Na história do cristianismo, ocorreu de tempos em tempos a percepção de que a igreja majoritária estava se afastando dos ideais propostos pelo Mestre. Um exemplo interessante é o montanismo, um movimento surgido após a metade do segundo século, na Ásia Menor. Montano e seus seguidores frígios foram críticos da igreja hierárquica, a “igreja dos bispos”, que eles criam estar sufocando o Espírito Santo e se amoldando gradativamente aos valores da sociedade pagã. Os montanistas propuseram um cristianismo atento à voz do Espírito e marcado por elevados padrões de ética pessoal, atraindo a adesão do ilustre teólogo Tertuliano de Cartago. Por causa do apelo desse grupo a revelações especiais que pareciam se sobrepor ao Novo Testamento e do seu questionamento dos líderes eclesiásticos, a igreja católica passou a nutrir grande suspeita em relação a movimentos dessa natureza, vistos como cismáticos e heréticos. O mesmo se pode dizer do movimento donatista do século 4º.

O monasticismo, que surgiu ainda na igreja antiga, preservou o interesse montanista por uma moralidade rigorosa, sem questionar a autoridade dos dirigentes da igreja. O movimento monástico resultou do reconhecimento de que não se deveria esperar uma plena consagração de todos os cristãos. Sempre haveria na igreja dois tipos de pessoas, uma maioria que se contentava com um cristianismo medíocre e uns poucos que aspiravam à perfeição, conforme as palavras de Jesus ao moço rico (Mt 19.21). Com seu tríplice voto de pobreza, castidade e obediência, e sua organização coesa e disciplinada, os monges deram contribuições extraordinárias nas áreas da educação, missões e beneficência. Ao longo da Idade Média, alguns mosteiros se tornaram importantes centros de renovação na vida da igreja.

Embora alguns líderes seculares, como o imperador Carlos Magno, tenham envidado grandes esforços no sentido de corrigir os males da igreja e elevar os padrões do clero, foram as ordens monásticas que deram origem aos principais movimentos reformadores da Idade Média. Entre elas se destaca a de Cluny, na França, que chegou ao cargo supremo da igreja na pessoa do papa Gregório VII (1073-1085), também conhecido por seu nome de batismo, Hildebrando. Esse líder empreendeu um vigoroso programa de reformas ao lutar contra três grandes distorções que afligiram a vida da instituição eclesiástica: a simonia (comércio de cargos eclesiásticos), o nicolaísmo (violação do celibato clerical) e as investiduras leigas (interferência dos governantes civis nas nomeações eclesiásticas).

Todavia, os séculos seguintes testemunharam não só a continuação desses problemas, mas o surgimento de novos transtornos que produziram constantes clamores por reforma. Uma dessas situações constrangedoras foi a transferência da cúria, ou seja, a corte papal, para a cidade de Avinhão, no sul da França. Tal fato ficou conhecido como o “cativeiro babilônico da igreja” e perdurou por cerca de setenta anos (1305-1377). Além de os papas ficarem na esfera de influência da política francesa, muitos fiéis estranhavam que o “bispo de Roma” residisse tão longe da cidade eterna. Uma situação ainda mais vexatória ocorreu nas décadas seguintes, com a existência de dois e, finalmente, de três papas simultâneos: em Roma, Avinhão e Pisa, fato esse que recebeu o nome de “grande cisma do Ocidente”.

No final da Idade Média, multiplicou-se na Europa um clamor por “reforma na cabeça e nos membros” da igreja. Em geral, o que se lamentava eram as distorções administrativas e morais que assolavam a hierarquia, a começar do caráter e atuação de alguns papas. No século 15, ocorreu um importante movimento que propunha a moralização da igreja mediante a ação de concílios, o chamado “conciliarismo” ou movimento conciliar, cuja expressão mais conhecida foi o Concílio de Constança, na Alemanha (1414-1418). Era uma tentativa de tornar o governo da igreja mais democrático e participativo, mas acabou produzindo forte reação que resultou no fortalecimento da instituição papal.

Ao mesmo tempo, surgiram algumas vozes que começaram a questionar uma área até então essencialmente intocada: o arcabouço doutrinário da igreja. Um dos primeiros a se pronunciarem sobre essa área tão sensível foi o sacerdote John Wyclif (c.1325-1384), ilustre professor de filosofia na Universidade de Oxford, na Inglaterra. Em uma série de tratados teológicos, ele se posicionou contra a estrutura dogmática da igreja medieval, afirmando a autoridade suprema das Escrituras, definindo a igreja verdadeira como o conjunto dos eleitos e questionando o papado e a transubstanciação. Wyclif também foi o incentivador da primeira tradução da Bíblia completa para o inglês, a Bíblia de Oxford. Conhecido como a “estrela da manhã” da Reforma Protestante, ele encontrou um ardoroso seguidor no sacerdote tcheco Jan Hus (c.1373-1415). Ironicamente, ambos foram condenados pelo concílio reformador reunido em Constança. O primeiro foi queimado na fogueira post mortem e o segundo, em vida.

Um movimento que deu contribuição decisiva para a eclosão da Reforma foi o Renascimento, no final da Idade Média. Na área filosófica e literária surgiu uma ênfase que ficou conhecida como humanismo, com seu famoso lema “Ad fontes”, ou seja, o retorno às fontes da cultura ocidental, a antiguidade clássica greco-romana. Entre esses antigos fundamentos do Ocidente estava a Bíblia, daí ter surgido um grupo de estudiosos que ficaram conhecidos como humanistas bíblicos, o mais famoso dos quais foi o holandês Erasmo de Roterdã. Foi ele quem publicou, em 1516, a célebre edição do Novo Testamento grego com uma tradução latina que despertou enorme interesse pelo estudo da Escritura e a consequente comparação dos seus ensinos com os dogmas da igreja tradicional.

Além dessas motivações – insatisfação crescente com os problemas morais e administrativos da igreja e um renovado interesse pelo estudo da Bíblia –, os historiadores apontam para outros fatores que contribuíram para o movimento reformador do século 16. Um deles foi o surgimento do estado nacional moderno, fortemente centralizado, e o sentimento nacionalista associado a ele. Uma das consequências disso foi a crescente animosidade contra interferências externas na vida das nações europeias, como aquelas praticadas pela igreja. Os papas não só intervinham na política de muitos reinos, como carreavam para Roma altas somas de dinheiro advindas das contribuições dos fiéis, o que despertava a indignação de muitos governantes.

Todavia, o fato é que, apesar desse complexo conjunto de circunstâncias, a eclosão inicial da Reforma resultou da experiência religiosa de um único homem. Foi na área da soteriologia, do entendimento da salvação, que tudo começou. Angustiado com a questão da justiça de Deus, que entendia como algo exigido dos seres humanos, o monge agostiniano Martinho Lutero fez uma descoberta revolucionária. Mediante o estudo das cartas paulinas, concluiu que, ao contrário do que imaginava, a justiça é algo graciosamente concedido por Deus àqueles que creem em Cristo. Eles são considerados justos diante de Deus, não por causa daquilo que fizeram, mas em virtude daquilo que Cristo fez por eles.

A “justificação pela graça mediante a fé somente”, não por meio de obras meritórias (Rm 1.17; 3.21-26; Ef 2.8s), tornou-se o grande fundamento doutrinário da Reforma Luterana e da Reforma Protestante como um todo. Essa convicção era uma decorrência do chamado “princípio formal” da Reforma, a supremacia da Escritura em matéria de fé e prática (Sola Scriptura), e foi desdobrada em três outros princípios fundamentais: Sola gratia (somente a graça), solo Christo (somente Cristo) e sola fides (somente a fé). A esses, somou-se um último princípio essencial para todos os ramos do movimento reformista – o sacerdócio de todos os fiéis, ou seja, o fim da distinção entre clero e leigos.

Concordes no âmbito da soteriologia, os protestantes acabaram por divergir fortemente em outras áreas, como o entendimento do ministério, do culto e da eucaristia, manifestando diferentes graus de afastamento da doutrina católica tradicional. Isso levou a várias divisões ainda no período inicial da Reforma. Os luteranos retiveram o episcopado e uma concepção mística dos sacramentos. Os anglicanos conservaram os conceitos de sucessão apostólica, hierarquia eclesiástica e liturgia solene, mas rejeitaram a transubstanciação. Os reformados suíços adotaram o sistema presbiterial em lugar do episcopal e nutriram um conceito elevado acerca do culto e dos sacramentos. Os anabatistas não quiseram reter quase nada do que os precedeu, e sim retornar à igreja do Novo Testamento, dando grande prioridade à experiência religiosa. Desses quatro grupos e suas ênfases resultaram todas as demais confissões protestantes.

Se, no aspecto negativo, o movimento protestante rompeu a unidade do cristianismo ocidental, no sentido positivo foram muitas as suas contribuições: grande apreço pela Bíblia como a Palavra de Deus e como a fonte primordial da fé e da cosmovisão cristã; valorização da pessoa de Cristo como único mediador entre Deus e a humanidade, e de sua obra expiatória como meio exclusivo de redenção e reconciliação; entendimento da igreja como sendo a comunhão dos fiéis e uma comunidade de adoração, testemunho e serviço; participação plena dos crentes na vida da igreja e do mundo como ministros de Deus; novo conceito de vocação, que valoriza a vida em família, o trabalho “secular” e o envolvimento na comunidade; ética pessoal, social e política que procura colocar todas as dimensões da vida sob o senhorio de Cristo.

No transcurso do 5º centenário da Reforma Protestante, os herdeiros desse vigoroso movimento de renovação e revitalização precisam se apropriar mais uma vez das convicções e valores que abalaram o século 16. Numa época em que o relativismo e o pragmatismo seduzem tantas igrejas e líderes, é urgente que ouçam e apliquem um lema que se tornou conhecido nos séculos posteriores à Reforma: Ecclesia reformata semper reformanda – igreja reformada, sempre se reformando. Só assim poderão cumprir com integridade sua vocação e missão no mundo em que vivem.