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A igreja católica do século 16

Alderi Souza de Matos

 

Em junho de 1520, na bula Exsurge Domine, que ameaçava Martinho Lutero com a excomunhão, o papa Leão X declarou que “um javali da floresta” estava tentando destruir a vinha do Senhor. Na realidade, havia muitos outros problemas que vinham assolando a Igreja Romana há um bom tempo e que chegaram ao ápice no século 16. No ano de 1500, o limiar desse novo século, enquanto a Igreja Grega ou Ortodoxa imperava na Europa oriental, a Igreja Católica Romana possuía o monopólio do campo religioso no Ocidente e exercia enorme influência no âmbito político. Esse fenômeno de grande poderio da igreja e de forte uniformidade religiosa é conhecido como “cristandade”.

Tal monopólio da esfera religiosa, isto é, a ausência de concorrentes, produzia na igreja uma atitude de complacência quanto a certas questões, a começar da situação do sacerdócio. Muitos clérigos eram mal preparados bíblica e teologicamente, e apresentavam fortes deficiências na sua vida moral. A violação da regra do celibato era frequente e muitos sacerdotes viviam abertamente em concubinato. Era generalizada a prática da “simonia”, ou seja, a compra e venda de altos cargos eclesiásticos, como os bispados e a direção dos grandes mosteiros. Como tais cargos eram altamente lucrativos, tornavam-se objeto de disputa das famílias mais ricas e influentes.

Na alta direção da igreja reinavam os chamados “papas do renascimento”, grandes patrocinadores de artistas como Bramante, Bernini, Rafael e Michelangelo. Esses pontífices estavam mais interessados em realizar projetos artísticos e arquitetônicos do que em se dedicar às responsabilidades pastorais do seu ofício. Alexandre VI ficou conhecido pela prática do nepotismo e de desenfreada corrupção; Júlio II foi um papa guerreiro que comandava pessoalmente o exército pontifício em defesa dos territórios da igreja; Leão X, ao ser eleito, teria dito: “Agora que Deus nos deu o papado, vamos desfrutá-lo”.

A religiosidade característica do final da Idade Média tinha como fulcro a busca incessante da salvação. A vida cristã era entendida como uma peregrinação: os fiéis que fizessem bom uso dos recursos oferecidos pela igreja, em especial os sacramentos, e se dedicassem à realização de boas obras, obteriam de modo crescente a graça de Deus e assim alcançariam a salvação de suas almas. Essa piedade tem sido descrita como contábil: de um lado havia débitos na forma de pecados e, do outro, créditos na forma de obras meritórias. Um saldo positivo asseguraria a posse do reino dos céus. Auxiliavam nesse processo as peregrinações, a veneração de relíquias, o culto a Maria e aos santos.

A eclosão da Reforma Protestante veio abalar fortemente esse cenário. Os reformadores questionaram os dogmas tradicionais em duas esferas particularmente sensíveis: o entendimento da salvação e o conceito de igreja (soteriologia e eclesiologia). O impacto da Reforma produziu um forte despertamento na Igreja Católica, que teve duas manifestações: a Contrarreforma e a Reforma Católica. Por um lado, a igreja se voltou com crescente agressividade contra o novo movimento. Foram expressões desse esforço a Inquisição, a ação dos jesuítas (ordem monástica oficializada em 1540) e as guerras religiosas. Por outro lado, a liderança católica procurou corrigir alguns erros apontados pelos protestantes, notadamente nas áreas moral e administrativa, promovendo uma importante reforma interna.

A maior expressão da Reforma Católica foi o Concílio de Trento (1545-1563), que definiu com maior precisão os dogmas católicos e rejeitou explicitamente as posições protestantes. Outra consequência desses eventos foi o grande fortalecimento do poder papal. Esse catolicismo mais autoconsciente, rígido e militante ficou conhecido como tridentino (derivado de Trento) e ultramontano (além dos montes, os Alpes, uma referência ao papado). Finalmente, no restante do século 16 essa igreja revitalizada se empenhou num vasto programa missionário, visando levar a fé católica aos novos e vastos territórios que estavam sendo colonizados pelos países ibéricos, Espanha e Portugal.