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Erasmo de Roterdã e o Novo Testamento Grego

Alderi Souza de Matos

 

Nos séculos 14 a 16, a Europa experimentou um grande florescimento intelectual e artístico que ficou conhecido como Renascença ou Renascimento. Os intelectuais e literatos ligados a esse movimento passaram para a história como os humanistas. Boa parte deles era composta de cristãos que nutriam grande interesse pelo estudo erudito da Escritura, com base nos textos originais. Daí ficarem conhecidos como humanistas bíblicos.

O mais destacado desses pensadores foi o holandês Desidério Erasmo ou Erasmo de Roterdã (c. 1466-1536), denominado o “príncipe dos humanistas”. Erasmo era filho ilegítimo de um sacerdote e na infância e juventude estudou em escolas dos chamados Irmãos da Vida Comum. Com cerca de 20 anos, ingressou num mosteiro agostiniano, onde estudou autores clássicos e os humanistas italianos. Apesar de não ter pendor para a vida religiosa, foi ordenado sacerdote em 1492. Poucos anos depois, cursou teologia no Collège de Montaigu, em Paris, onde haveriam de estudar João Calvino e Inácio de Loiola. Isso o colocou em contato com humanistas franceses.

Em 1499, visitou a Inglaterra e conheceu os principais humanistas daquele país, entre os quais John Colet e Thomas Morus. Despertado para o exame criterioso da Bíblia e dos pais da igreja, retornou a Paris e dedicou-se nos seis anos seguintes ao domínio da língua grega e aos estudos literários e filológicos. Após um período na Itália, no qual obteve o grau de doutor em teologia na Universidade de Turim, fez sua mais longa visita à Inglaterra. Por três anos, lecionou grego na Universidade de Cambridge. Após passar os anos 1514 a 1521 nos Países Baixos, particularmente em Bruxelas e Lovaina, residiu por oito anos em Basileia, na Suíça. Quando a Reforma foi introduzida nessa cidade, em 1529, transferiu-se para Friburgo, onde passou seus últimos anos de vida, tendo falecido durante uma visita a Basileia em 1536.

No aspecto religioso, Erasmo ocupou uma curiosa posição intermediária entre católicos e protestantes. Por um lado, foi um crítico mordaz da corrupção que via na igreja romana e no clero. Por outro lado, seu espírito pacífico e avesso ao dogmatismo impediu que nutrisse simpatias pela ruptura proposta pelos reformadores. Como observa o historiador Williston Walker, seu programa de reforma da igreja e da sociedade, a ser efetivado por meio da educação e da persuasão verbal, tinha como centro o que ele denominava a “filosofia de Cristo”, uma religiosidade essencialmente ética, interior e espiritual. Suas ideias podem ser vistas nas obras Manual do Soldado Cristão (1503), Elogio da Loucura (1509) e Colóquios Familiares (1519), dentre outras.

Sem jamais ter abraçado a Reforma, Erasmo involuntariamente acabou dando contribuições importantes para o movimento protestante. A principal delas foi a publicação, em 1º de março de 1516, de sua obra mais célebre: a primeira edição impressa do Novo Testamento grego, sob o título Novum Instrumentum. Na verdade, dois anos antes já havia sido impressa na Espanha uma edição do Novo Testamento na língua original, que iria fazer parte da Bíblia Poliglota Complutense, porém ela só foi publicada em 1520. A edição de Erasmo, que veio a lume em Basileia, era acompanhada de notas críticas e de uma tradução latina mais precisa que a antiga Vulgata Latina, de Jerônimo. No prefácio, Erasmo indicou o seu objetivo de que todos pudessem ler a Bíblia, de modo que o lavrador a cantarolasse enquanto trabalhava no arado e o tecelão murmurasse porções ao som do seu tear.

A edição de Erasmo incentivou o grande esforço de tradução e popularização da Escritura empreendido pelos partidários da Reforma. Ela foi a fonte primária da Bíblia Alemã de Lutero (1522) e da tradução inglesa de William Tyndale (1525). Além disso, como observa o autor Alister McGrath, essa edição permitiu que os teólogos tivessem acesso direto às fontes originais da teologia cristã, e isso teve consequências revolucionárias. O Novo Testamento de Erasmo também contribuiu para expor as traduções falhas ou tendenciosas existentes nas versões latinas da época, em particular a Vulgata.

Três exemplos ilustram esse fato. Enquanto a Vulgata Latina fala do casamento como um “sacramentum” (Ef 5.31s), Erasmo destacou que a palavra grega significa simplesmente “mistério”. A Vulgata traduz as palavras de abertura do ministério de Jesus como “fazei penitência, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4.17), mas o estudioso holandês insistiu que o texto grego diz simplesmente “arrependei-vos”. Enquanto a tradução de Jerônimo fala da mãe do Redentor como “cheia de graça” (Lc 1.28), dando a entender que é um reservatório de graça, Erasmo advertiu que o texto original significa “favorecida” ou “aquela que encontrou graça”.

O Novum Instrumentum também deu grande incentivo à pregação bíblica. Isso é ilustrado pela experiência de Ulrico Zuínglio, o reformador de Zurique. A partir do momento em que tomou contato com a edição de Erasmo, Zuínglio decidiu pregar somente a Escritura e avaliar o arcabouço doutrinário da igreja com base somente na Escritura. Erasmo deu ainda outras contribuições, como a necessidade de reforma da igreja, a censura ao monasticismo, a ênfase no papel dos leigos e o valor de uma espiritualidade interior, mas nenhuma foi tão decisiva como sua edição pioneira do Novo Testamento, que acaba de completar 500 anos.